A Bahia ganha mais um patrimônio tombado: A Fazenda Engenho D’Água  

No final do mês de fevereiro, uma equipe técnica do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia – IPAC esteve em São Francisco do Conde, município do Recôncavo Baiano, com o objetivo de analisar o Conjunto Arquitetônico tombado recentemente aquela época. Na oportunidade, também foi realizada uma visita técnica à Fazenda Engenho D’Água para verificar a existência de mérito para o tombamento do bem, que nesta última terça-feira, dia 05 de junho, culminou com a Notificação de Abertura do Processo de Tombamento da fazenda. Sem dúvidas, um marco histórico e de grande valor cultural para a Bahia e o Brasil, como apontaram os membros presentes à cerimônia.

Isso é a concretização de um sonho. Quando aqui cheguei, que encontrei as ruínas, esse lugar parecia um cadáver, era uma destruição só e eu logo imaginei que teria que trabalhar muito para que pudesse recuperar a parte histórica, arquitetônica e funcional da fazenda. Porém, eu sabia que, com isso, eu estaria contribuindo com a formação dos jovens desta cidade, bem como a preservação da história e cultura locais. Sei que todo mundo quando vem a Terra tem uma missão e a missão que Deus me confiou foi esta. Isso para mim é um dos momentos mais importantes da minha vida, onde, inclusive, a partir de agora, passamos a ter uma proteção maior deste bem”, disse em entrevista o proprietário da Fazenda Engenho D’Água, Mário Augusto do Nascimento Ribeiro. Veterinário de formação, Mário diz que atualmente vive exclusivamente da renda da fazenda. O local dispõe de um leque de serviços voltados ao turismo e eventos, além da produção de culturas alimentícias diversas, como o cacau, que é o carro-chefe da fazenda. A propriedade possui 540 hectares, sendo que 79% é utilizado em culturas e 21% destina-se a reserva ambiental.

Durante os discursos, muitos agradecimentos foram feitos a Mário Ribeiro, por sua iniciativa em revitalizar e preservar o local que conta sobre a história do povo baiano, em especial dos franciscanos. “Quero agradecer a Mário pela confiança em nosso trabalho e por preservar esse patrimônio histórico, que agora não é só mais seu é de todos desse país”, relatou Maria Bernadete Primo (Departamento de Patrimônio Histórico da Secretaria de Cultura), cuja fala foi realizada após o secretário da pasta, Osman Ramos, chamar Mário de “guardião da cultura”. Ao saudar o amigo Mário Ribeiro e relembrar os diversos momentos de discussão sobre os rumos da Fazenda Engenho D’Água, a secretária de Turismo de São Francisco do Conde, Ússula Flávia, contou sobre o quanto o proprietário da fazenda vem contribuindo para o desenvolvimento do município. “Os eventos daqui contam com mão de obra local. Mário é uma pessoa que compra no município, o que contribui para o aquecimento dessa cadeia produtiva. São empresários como você que a gente tá precisando em São Francisco do Conde”, apontou.

O presidente da Câmara de Vereadores, Venilson Souza Chaves (Cravinho), de antemão, convidou Mário para participar de um evento na Casa Legislativa e levar tal conhecimento a todos os cidadãos franciscanos. “Você é um homem guerreiro, empreendedor, e temos que levar ao conhecimento da população o seu trabalho, que já é reconhecido em todo o Brasil. Tenho a certeza de que o senhor será homenageado e com méritos. São pessoas diferentes como você que precisamos na cidade”. Também presente ao evento, o deputado estadual Rosemberg Pinto, discorreu sobre a importância do momento. “A partir desse momento, cria-se uma oportunidade imensa, a partir do ponto de vista da atração de novos negócios. É a partir deste ponto que este bem se torna um equipamento regularizado, do ponto de vista do estado, para que possam aqui acontecer atividades e também a própria instituição venha a buscar e captar incentivos por meio de leis. A Assembleia Legislativa dá todo o apoio no sentido de que a gente possa valorizar cada vez mais nossa história e cultura e fazer com que ações como essa se repitam”, afirmou o deputado.

O superintendente de Serviços Turísticos da Secretaria de Turismo do estado, Jorge Ávila, destacou que a Bahia precisa de mais ‘Mários’ para iniciativas como essas. “Somos hoje agraciados com um presente desses, mais uma agenda positiva para o nosso estado que a gente comemora e que o secretário José Alves agradece. Agora temos que trabalhar muito e potencializar este local”. Na mesma linha, o diretor do IPAC, João Carlos de Oliveira, disse que “hoje a gente dá um exemplo para a Bahia e para o Brasil com este ato”.

A gerente de Patrimônio Material do IPAC, Roberta Ventura, explicou que o tombamento estadual vem como reconhecimento oficial deste bem como patrimônio cultural da Bahia. “A gente fica muito feliz porque em boa parte do nosso trabalho raríssimas vezes a gente vê um investimento privado desse porte na recuperação de um patrimônio. A gente vem trabalhando no sentido de conscientizar as pessoas para a valorização do bem, para a preservação da identidade e história locais. Uma iniciativa como essa tem que ser enaltecida e valorizada”. Ainda segundo Ventura, a partir da assinatura deste processo de abertura de tombamento, a Fazenda Engenho D’Água passa a estar protegida e a equipe do IPAC inicia a construção do dossiê, que é um estudo mais aprofundado do bem. O último passo será a homologação e publicação do decreto do tombamento definitivo, que é executado pelo governador. “Esse caminho hoje é apenas o início, mas vale ressaltar que os efeitos do tombamento provisório são os mesmos do definitivo. Então, qualquer intervenção do bem precisa ser apresentado o projeto ao IPAC, para que a gente faça uma análise e o bem não seja descaracterizado. Da mesma forma o entorno desse bem também tem proteção, porque a ambiência é muito importante”, concluiu.

Representando o prefeito de São Francisco do Conde, Evandro Almeida, o vice-prefeito e secretário de Governo Carlos Alberto Bispo (Nem do Caípe), proferiu em seu discurso as palavras de Evandro: “estamos vivendo hoje um dia ímpar, um dia especial para a história do Brasil e da América Latina como um todo. O solo em que hoje estamos pisando e sendo carinhosamente recepcionados por seus proprietários e sua equipe de trabalho exerce um papel fundamental para o protagonismo de São Francisco do Conde na história da Bahia e do Brasil. A Fazenda Engenho D’Água que foi fundamental na logística de apoio aos bravos guerreiros do recôncavo nas lutas que consolidaram a definitiva ruptura dos laços opressores que tínhamos com os colonizadores, e que culminaram com a independência da Bahia e do Brasil no dia 02 de julho de 1823. Nesse solo também se desenvolveu e é desenvolvida a economia desse país. Foi aqui que primeiro se desenvolveu a cultura cacaueira na região do Recôncavo da Bahia. A arquitetura de sua igreja que tem a proteção do Senhor Bom Jesus, em formato octogonal, é uma raridade na América Latina. Por tanto, estar aqui na Fazenda Engenho D’Água é fazer uma viagem no tempo, estar aqui é revisitar o passado de luta e de glória do povo franciscano. E esse processo de tombamento nos dá a garantia de ter toda essa bela história salvaguardada pelas atuais e futuras gerações. Também premia e valoriza o belíssimo trabalho de muita sensibilidade do Sr. Mario Ribeiro na reforma, reconstrução e resgate dessa preciosa joia que é toda a fazenda e não só a área construída, mas a harmonia do conjunto paisagístico. Quero finalizar parabenizando o empenho, dedicação e trabalho de toda equipe da Secretaria de Cultura, através do Departamento de Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural, que, com mais esse processo, alcança o número quatro de tombamentos, num intervalo de aproximadamente três anos, e isso é louvável e digno de reconhecimento. Agradecer também ao IPAC pela atenção e parceria com nossa cidade, as autoridades presentes e agradecer ao Sr. Mário Augusto Ribeiro, a sua família e equipe de trabalho, parabenizando pelo feito, pelo reconhecimento e pelo carinho com que trata essa joia preciosa, que é a Fazenda Engenho D’Água”.

Bastante emocionado, Mário agradeceu as pessoas que vêm lutando ao lado dele para colocar a fazenda no que ele chama de ‘trilhos ambientais e econômicos’. “Não tenho dúvida do quanto é especial para mim ressuscitar esse patrimônio tão belo que estava adormecido e revelá-lo ao mundo. Riqueza arquitetônica, cultural, que compõe o nosso Recôncavo Baiano, tão bem representado nesse monumento tombado no dia de hoje. A minha ancestral vinculação com essa cidade transcende com o aspecto físico e não tenho dúvidas, vem ocupar inteiramente o meu coração. Talvez, por isso, não tenho receio de afirmar que este é um dos momentos mais emocionantes da minha vida, pois é parte de um sonho que venho alimentando há décadas, que está se consolidando nesse instante, e tenho certeza que muito irá contribuir na formação das gerações futuras, em ver materializada parte da sua história […]. Por fim, não posso deixar de dedicar especiais agradecimentos a minha mãe, Dona Carmem, a minha esposa Salette e todos os meus amigos que de alguma forma contribuíram para a recuperação dessa fazenda. Meus sinceros agradecimentos a todos”.

Simultaneamente a Notificação de Abertura do Processo de Tombamento da Fazenda Engenho D’Água foi assinado um Termo de Parceria entre a Prefeitura de São Francisco do Conde, por meio das secretarias municipais de Cultura (SECULT), de Turismo (SETUR) e da Educação (SEDUC), e a fazenda. “Esse termo de parceria visa o estabelecimento de uma ação contínua com a Fazenda Engenho D’Água, no que se refere à visitação constante para aulas públicas e práticas com os nossos estudantes, de toda a rede, que na verdade já vem acontecendo. Daqui para a frente a nossa rede municipal de educação estará conhecendo esse patrimônio, que é do município de São Francisco do Conde, e que conta parte da história gloriosa desta cidade. É uma iniciativa louvável da gestão municipal”, elucidou o secretário da Educação, Marivaldo do Amaral.

Conheça mais sobre a Fazenda Engenho D’Água em http://www.fazendaengenhodagua.com.br