Seminário Referencial Curricular Franciscano reúne toda a Rede Municipal de Ensino em um evento marcado por muita reflexão e diálogo

A melhoria na qualidade da Educação pública de São Francisco do Conde é um dos carros-chefe da gestão municipal. Alinhado a esse propósito, no último dia 14de maio, foi realizado o Seminário Referencial Curricular Franciscano, que reuniu centenas de profissionais da Rede Municipal de Ensino e da Secretaria da Educação – SEDUC, no auditório 02 de Julho/SEDUC, imbuídos da grande responsabilidade de decidirem os saberes que farão parte do currículo municipal.

Segundo o professor e secretário da EducaçãoMarivado do Amaral, “este seminário é parte de um ciclo de ações da Secretaria da Educação, com toda a rede municipal, que visa estabelecer um tempo novo na Educação de São Francisco do Conde”. Para o secretário, “a construção de um referencial curricular é a construção da alma da Educação. O currículo pode dizer muito de onde queremos chegar, em uma educação de excelência. E uma educação de excelência e de qualidade se faz com os profissionais que aqui estão”.

A fim de somar nessa tarefa que se constitui enquanto um grande ato político-administrativo – afinal é através do conhecimento que o cidadão se emancipa e cria a sua própria história – palestraram no evento, os professores doutores Cristina D’Ávila (Faced/Ufba), Eliane Costa (Unilab), Giovana Cristina Zen (Faced/Ufba) e Roberto Sidnei Macedo (Faced/Ufba). Eles compartilharam com a plateia temáticas que versaram sobre a didática contemporânea, questões etnorracionais na Educação Básica, concepções de alfabetização, além da singularidade e dignidade do Currículo Franciscano, este último, trazido pelo professor Roberto Sidnei Macedo, ilustre pesquisador brasileiro, com diversos livros publicados, entre eles Teorias do currículo, campo, conceito e pesquisa, publicado pela editora Vozes, que já está em sua sétima edição.

Em seu pronunciamento para os servidores e colaboradores da Educação municipal, o prefeito Evandro Almeida agradeceu, sobretudo, o empenho de todos para com a grande meta de oferecer uma educação cada vez melhor para os munícipes. “Vocês estão ajudando a transformar a educação da nossa cidade, que vem melhorando dia após dia, é visível! Com a construção do nosso currículo estamos realizando algo inédito aqui. Vamos trabalhar todos juntos para fazer a educação de São Francisco do Conde uma das melhores deste país”. O prefeito aproveitou para pedir a união de todos em prol da luta pela permanência da UNILAB no município.

O secretário da Educação Marivaldo do Amaral saudou o prefeito Evandro Almeida e demais autoridades presentes, dando as boas-vindas aos professores e palestrantes. Saudou e agradeceu de maneira especial a equipe da Secretaria da Educação. ”Essa equipe guerreira, que muito luta para juntos escrevermos, a cada dia mais, capítulos novos na Educação desta cidade”.

De acordo com o secretário Marivaldo,“os dias que antecederam o seminário foram dias muito emocionantes para mim, como professor de História, como secretário da Educação no município, onde eu pude vivenciar alguns momentos de GT’s e de formação com esse grupo, e acompanhar, através da minha equipe, esse processo de construção que tem acontecido da maneira que deve ser uma educação emancipadora, de forma democrática, ouvindo a todos, inclusive os nossos estudantes, até porque tudo isso é para eles. Nós estamos construindo uma cidade com um cidadão consciente e crítico”.

O Currículo Franciscano

Qual o caminho que a gente quer chegar com esse currículo? Não tenho dúvidas de que a estrada é longa, mas nós temos caminhado muito, a passos largos”,disse Marivaldo do Amaral.

A gente quer muito que esse currículo tenha nome e sobrenome franciscano, mas situado no nosso lugar, na perspectiva da nossa ancestralidade”, declarou a diretora pedagógica Cristiana Ferreira. “Um documento que a gente acredita que precisa ter a participação de todos! Ele precisa ser vivo”, reiterou. A diretora pedagógica da SEDUC também comentou que a finalidade dos três livros que foram entregues aos professores da rede – Teorias de currículo, ludicidade, cultura lúdica e formação de professores e Teorias do currículo, campo, conceito e pesquisa – foi assegurar “a questão conceitual para que a gente fique mais forte na escrita”. Durante o seminário, houve sessão de autógrafos com os autores de algumas das obras.

Mesa: Tecendo Saberes e Fazeres da/na Educação

Essa mesa redonda aqui hoje é um manancial de riquezas”, afirmou o secretário da Educação Marivaldo do Amaral, apresentando os professores/pesquisadores presentes à mesa redonda, que, em seguida, explanaram para a plateia de aproximadamente 700 pessoas.

Política de Currículo e Referencial Curricular Franciscano: Singularidade e Dignidade

Na primeira palestra da manhã, o Professor Doutor Roberto Sidnei Macedo explicou que o currículo é um conjunto de orientações e referenciais que não pode ser confundido com um guia. “Sua função é orientar e referenciar um conjunto de atos de currículo porque a escola também é local de se fazer currículo. O referencial passa a ser algo a ser debatido”, disse.

O currículo é um ato político e por isso devemos começar do começo, com a formação de professores. Por reivindicações dos próprios professores, ele deve atender a uma singularidade identitária complexa”, afirmou o professor.

Não se pode pensar currículo se não for implicado à qualificação dos processos formativos. Não tem razão se não for assim! Não adianta criar teorias abstratas sem implicar na formação, pensar a formação do outro e a própria formação do professor. Um cérebro não está separado de uma história de vida”, afirmou Roberto Sidnei. Segundo ele, “o saber emana poder. Faremos um currículo com perspectiva multirreferencial e globalizada”.

Sobre o porquê de incluir o termo dignidade no título da palestra, o professor disse que se deve ao desafio aceito pelo município de fazer desse jeito. “Não é um documento que tem como compromisso criar um referencial para nos orgulharmos em nosso trabalho, mas um documento que se colocando nas plataformas digitais mostrará ao mundo como se faz currículo com dignidade”, reiterou.

Parabenizo a coragem da Secretaria da Educação em aceitar esse desafio. Dedico a vocês essa minha apresentação por acreditarem na dignidade da construção desse Referencial Curricular Franciscano”, declarou o pesquisador e professor da UFBA.

Didática Contemporânea

Ao iniciar sua fala, a professora Cristina D’Ávila afirmou que São Francisco do Conde “é um oásis nesse fazer curricular, marcado pela coragem de assumir o compromisso com a educação de qualidade”. Ao introduzir o tema que refletiria dali por diante, mostrou a diferença entre pedagogia e didática.

A pedagogia é a Ciência da Educação. Ciência Social aplicada, interdisciplinar por natureza”, esclareceu ela, que é uma das responsáveis pela formação dos professores da UFBA, oriundos de diversas áreas do conhecimento.

Já a didática é um ramo da Ciência Pedagógica que se ocupa dos processos de ensino e aprendizagem. “Nosso objetivo são os processos de ensino, onde estudo envolve questões mentais, cognitivas, sociológicas, econômicas, históricas. Aprendermos o que é o aprender e o ensinar”, disse a especialista no assunto. “Todo trabalho didático é pedagógico, mas nem todo trabalho pedagógico é didático!”.

Temos uma contribuição muito grande entre essas duas áreas, principalmente nos paradigmas do ensino”, destacou a Professora Doutora Cristina D’Ávila. Em seguida, ela estabeleceu pontos de interseção entre as áreas do Currículo e da Didática, identificados na compreensão das relações entre conhecimento e poder. “Os conteúdos não são neutros. Precisamos considerar a ideia de pluralidade de linguagens e a importância do lúdico, além das essenciais questões de identidade e pertencimento”, falou Cristina, que é natural de Cachoeira.  

Antes de passar a palavra para a próxima conferencista, Cristina D’Ávila deixou claro que “reformas curriculares não ajudam a transformar a educação, somente uma reforma radical! Essa é uma oportunidade ímpar de consolidar isso dentro de um coletivo”.

Currículo e Questões Etnorracionais na Educação Básica

Pensar em um currículo no qual a singularidade das relações étnico-raciais é um dos princípios, é pensar em nossa ancestralidade, vai muito além de pensar apenas em raça e etnia, mas na relação do currículo voltado para dentro da escola e fora da escola”, discorreu a Prof. Dra. Eliane Costa, docente da UNILAB. “Como o fora da escola dialoga com o dentro da escola? Um currículo escolar precisa ser local e global, como diz Roberto Sidnei”, completou.

De acordo com a professora Eliane, que já foi da rede municipal, “devemos pensar na estrutura como um currículo plural, contemplando desde as comunidades quilombolas à Ilha do Paty”. Ela afirmou a necessidade de discutir os eixos conceituais de identidades (autoestima e afetividade), preconceito, discriminação, raça e racismo social.

Precisamos pensar nas identidades dentro e fora da escola, a partir da afetividade e da autoestima. Sem afetividade nada faz sentido, assim como não se verretratado pelo outro”.“Precisamos valorizar as identidades dos diversos grupos no tocante à raça, etnia, gênero, sexualidade, geração, classe, atuando na busca da superação das desigualdades”.

A professora Eliane mostrou que existem dois tipos de discriminação: a positiva, que promove o sujeito, e a negativa, que desqualifica e estigmatizaA desigualdade é o elemento potencializador das políticas públicas positivas”.Ela também afirmou que contribuir na descolonização dos saberes envolve oralidade, etnobotânica, etnomatemática, território geográfico local e história local.

Como identificar e superar a influência da escola na baixa autoestima das crianças e jovens negros? Como desconstruir estereótipos causados pelo racismo institucional?”,questionou Eliane, levantando tais reflexões ao fim de sua fala.

Concepções de Alfabetização em Debate

Antes de entrar no tema da palestra, a Professora Doutora Geovana Zen agradeceu à SEDUC pela confiança e determinação no projeto do Referencial Curricular Franciscano. Ela é responsável por uma pesquisa inédita no Brasil, sobre a escrita, que está sendo feita com estudantes das escolas Arlete Magalhães, Frei Eliseu Eisman e Monteiro Lobato. O trabalho é orientado pela aclamada Prof. Dra Eliana Ferreiro. “Obrigada à Arlete, Frei Eliseu e Monteiro Lobato por abrirem as portas para a pesquisa”, disse.

Falar de alfabetização é uma questão curricular, didática e étnico-racial. O analfabetismo em nosso país tem cor!”, afirmou, entrando no tema de sua palestra. A professora Giovana disse que, no ano passado, os pesquisadores da área foram surpreendidos pelo que a Base Nacional Comum Curricular – BNCC propõe para a alfabetização e depois, em 11 de abril de 2019, com o decreto da Política Nacional de Alfabetização.

A publicação deste decreto gerou um grande desconforto, com matérias na Folha de São Paulo e no Globo. Precisamos ficar atentos aos interesses que orientam cada uma dessas propostas. Cada concepção é definida por uma perspectiva sociopolítica sobre os sujeitos. O que se ensina quando se alfabetiza? Não estamos ensinando apenas leitura e escrita”.

A professora fez uma crítica aos dois documentos. Para ela, a perspectiva que privilegia a escrita como código de transcrição da fala e não como um sistema de representação definido entre as práticas sociais, entre o sujeito, não é a mais acertada. “O conceito de código escrito reduziu a função da escrita a de apenas um instrumento de transposição da oralidade”, declarou, citando a teórica Blanche Benveniste.

A escrita deve ser entendida como um objeto do conhecimento”, defendeu. “A escrita não se reduz à mera transcrição fonética. Para formar sujeitos capazes de participar de diversas práticas, é preciso pensar o sistema de escrita articulado a situações comunicativas”.

Segundo Geovana Zen, a escrita como código, reduz o estudante a um aprendiz de uma máquina de reprodução de sinais gráficos. “A língua não pode ser reduzida à consciência fonológica. Precisamos levar em conta a inteligência dos alunos e não tratá-los como um ignorante”, reforçou. “Que sujeitos estamos formando dessa forma?”, questionou.

É um pecado intelectual para toda a vida renunciar os sujeitos intelectualmente ativos!”, continuou. “O que estamos decidindo aqui é que sujeito é esse que estamos formando. Essa é uma decisão política!”, finalizou a professora, reiterando que “sempre que o município me chamar, estarei aqui”.

Nas palavras do secretário da Educação, “nós precisamos como educadores, municiados das estratégias pedagógicas, fazermos o conhecimento se tornar mais palatável aos nossos estudantes e com isso eles aprenderem com maior prazer e com maior dedicação”.

Considerações Finais

Após rodada de perguntas e respostas, com a participação da plateia, a diretora pedagógica da SEDUC, Cristiana Ferreira, teceu suas considerações. “Está na nossa mão fazer esse currículo com singularidade e dignidade. O saber emana poder, todas as falas trouxeram isso muito fortemente. Esse é o poder que está na nossa escrita e nós não podemos perder isso de vista. Temos o compromisso de fazer esse ensinar e aprender bem. Estamos tentando viver uma reforma radical, para além dos saberes eurocêntricos”, afirmou.

Tinha um caminho mais fácil, mas a gente escolheu esse caminho, que é o que nós acreditamos. Toda vez que penso no currículo franciscano penso que ele tem que ter o nosso jeito!”, disse, reafirmando a importância da participação de toda a rede nessa construção coletiva. “É impossível pensar o currículo sem a presença de vocês! A gente quer que os professores e os gestores venham juntos, com muita força!”, completou a diretora pedagógica.

De acordo com o gestor da pasta da Educação, “ao final da construção deste referencial, nós teremos um projeto de cidade”, afirmou.“O que nós construímos juntos com esta rede vai para o cotidiano do nosso estudante, que é o futuro da nossa cidade, que é o cidadão em formação e para eles, nós nos dedicamos diariamente, seja no âmbito das unidades escolares ou da secretaria, ou ainda no próprio Gabinete do Prefeito, todas as ações são focadas no cidadão de São Francisco do Conde”.

O secretário Marivaldo do Amaral agradeceu aos convidados, “por essa rica manhã que nós vivenciamos aqui. A gente precisa sempre de momentos como esses para nutrirmos o nosso sonho de uma educação de qualidade para todos”. Em seguida, o professor Marivaldo convidou a todos para o Marco em defesa da UNILAB e das universidades públicas.

No período da tarde, o professor Roberto Sidnei Macedo fez uma leitura comentada da introdução do Referencial Curricular Franciscano. Na sequência, os Grupos de Trabalho apresentaram o resultado de toda a produção já realizada, através dos organizadores curriculares. Até o dia 13 de junho, quando será apresentado o documento redigido, toda a rede continuará mobilizada em prol da elaboração do Currículo Franciscano.

O nosso próximo passo será ouvir a sociedade franciscana porque nós queremos um currículo com a cara de São Francisco do Conde, mas aberta para o mundo. O cidadão desta cidade precisa, cada vez mais, caminhar rumo à verdadeira emancipação, à verdadeira libertação que eu, não tenho dúvidas nenhuma, só acontecerá através da Educação”,declarou o professor e secretário Marivaldo.