Uma aula para ficar na história: Universidade e Educação Básica na construção do Currículo Franciscano

O dia 05 de setembro de 2019 ficou marcado, em São Francisco do Conde, como um verdadeiro encontro entre a Universidade e a Educação Básica. No simbólico espaço da Senzala do Engenho D’Água, que serviu como hospital durante as batalhas pela independência brasileira na Bahia, uma aula pública foi ministrada para alunos de mestrado, doutorado e pós-doutorado da Faculdade de Educação – FACED, conjuntamente com profissionais da Secretaria Municipal da Educação – SEDUC.

O secretário da Educação Marivaldo do Amaral, que é mestre em História Social pela UFBA, foi o primeiro a expor o tema da primeira parte da aula: a importância histórica de São Francisco do Conde no mundo. Em seguida, os professores José Marcelo e Jorge Tchuri explanaram sobre a importância econômica e histórica do município.

Salvador pela sua própria geografia sempre dependeu muito do Recôncavo. Quando a gente pega essa geografia, a gente percebe São Francisco do Conde em uma posição estratégica. Todos os movimentos anticolonialistas passaram por aqui pelo Recôncavo, mas as pesquisas acadêmicas deram mais conta de Cachoeira. No entanto, quando se vai a campo, nós identificamos várias evidências da grandeza dessa região em todo movimento da economia que colocava o Brasil em intenso diálogo com a Europa. Nessa região, tínhamos a maior quantidade de engenhos de todo o Nordeste”, explicou o professor e secretário Marivaldo.

O antigo proprietário do Engenho D’Água fora Joaquim Inácio de Siqueira Bulcão. A Independência da Bahia foi, em grande parte, bancada pelos grandes donos de engenhos, como ele, conforme explicou o professor José Marcelo, em sua contribuição. “Falar desse espaço e dessa vastidão de engenhos, entre eles o Engenho D’Água, é falar da independência brasileira, que foi construída nesses espaços, onde o coração econômico do Brasil pulsava. Versões essas que precisam ser recontadas no espaço escolar”.

De acordo com o professor Jorge Tchuri, “ao longo desse grande Recôncavo sucedem-se, em pequenas distâncias, várias histórias seculares que tiveram seu esplendor na cana-de-açúcar, no fumo e no gado. Luxo, esplendor, prestígio político que transcendia os limites da Bahia e virava notícia em Portugal”.Ele também contou a história da Refinaria Landulpho Alves, informando que os primeiros poços de petróleo foram localizados dentro dos engenhos de açúcar. “Pelas condições geográficas, temos a instalação da primeira refinaria pública de petróleo do Brasil aqui, concluída em 1950”.

Em seguida, a diretora pedagógica da SEDUC, Cristiana Ferreira, falou a respeito do Currículo Franciscano, que seria tratado na aula do professor da FACED, Roberto Sidnei Macedo, sobre “Currículo e Multirreferencialidade”. “A gente acredita muito que o Currículo precisa ser construído pela Rede Municipal de Ensino. A gente tem uma gerência de Currículo, o que mostra a força dessa ação dentro da nossa secretaria”, pontuou Cristiana. “Tivemos as inscrições online para formar os GTs, depois fizemos um seminário. Em um trabalho de formiguinha, a rede vai se convencendo que é possível. O quanto a gente fez e faz essa escrita! Estamos fazendo devolutivas, indo e voltando com o texto. Temos uma alegria muito grande quando a gente pega o marco referencial da área. É um orgulho que não tem tamanho! Nós, que fazemos Educação Básica, precisamos escrever sobre ela”.

O professor Roberto Sidnei iniciou sua fala revelando que o ato de reunir professores universitários, estudantes de mestrado, doutorado e pós-doutorado para discutir questões vinculadas ao movimento da construção do Currículo Franciscano “tem nos levado a excelentes lugares porque nos inspira”. Em seguida, agradeceu à gestão municipal, em nome do secretário Marivaldo do Amaral. “Estamos conseguindo vir até aqui porque estamos tendo condições. Essa construção precisa de materialidade. A gente agradece o apoio em nome do Formace”, grupo de pesquisa coordenado por ele na UFBA.

São Francisco do Conde olha para a política da Base Nacional Comum Curricular – BNCC e vê que o município tem autonomia. Aqui vamos fazer um referencial curricular franciscano no fluxo de uma norma, mas com independência, que significa sair da construção curricular a partir de uma perspectiva livresca e ouvir histórias de pessoas”, continuou o professor, lembrando a necessidade de pensar a relação entre o saber histórico, a política, a ética, a estética, a cultura e a espiritualidade. “Não fazer currículo para o outro, sem o outro e muitas vezes contra o outro. Todos esses saberes experimentados como possibilidades formacionais. A formação se dá no encontro com a experiência do outro”.O professor Roberto lembrou que o conceito de Currículo Nômade partiu de uma ideia dada pelo secretário Marivaldo, de ir para a escola falar com os professores e alunos. “Uma experiência como essa é eminentemente acontecimental e experimental. Parte de uma epistemologia plural”, disse. Epistemologia é a Ciência que estuda o conhecimento.

A diretora pedagógica da SEDUC lembrou a relevância da ancestralidade no saber local, o que se reflete na abordagem da Matemática sob a perspectiva da Etnomatemática, com a professora Eliene Costa Santos, da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB). “Cada localidade tem sua especificidade. Nessa escola quilombola, o que devemos trazer?”.

Para Tarsio Macedo, doutorando na Faculdade de Educação da UFBA, a universidade e Educação Básica não podem estar afastadas. “A partir do momento que a gente tem a multirreferencialidade como algo central na aprendizagem é preciso buscar todos os meios possíveis para que esse processo aconteça. Não adianta produzir academicamente se esse conhecimento não sai dos muros da universidade e com uma linguagem adequada para ser usada na sala de aula, para conversar com outras faixas etárias”, disse. “Vejo como uma iniciativa muito interessante, dentro de um contexto político que tem como característica elitizar o acesso e a construção do conhecimento. O que está acontecendo em São Francisco do Conde vai de encontro a tudo, na medida em que os mais diversos grupos que atuam na Educação se juntam para construir o Currículo Franciscano”, concluiu.