“Que o Currículo Franciscano tenha dignidade para ser debatido em qualquer lugar do mundo!”, declarou o Prof. Dr. Roberto Sidnei, em encontro com os profissionais da Rede Municipal de Ensino

Essa foi uma das frases de impacto que marcaram a fala do professor Roberto Sidnei Macedo, um dos maiores especialistas em currículo do país, no último encontro que teve com os profissionais da Rede Municipal de Ensino, ocorrido no auditório da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira – UNILAB, na quarta-feira (10). O professor está prestando assessoria técnica ao processo coletivo de construção do referencial curricular franciscano e, a cada novo encontro, tem brindado os participantes com bastante conhecimento e reflexões críticas.

A proposta é que se garanta um currículo franciscano contemporâneo, uma vez que se educa para o presente. Para isso, segundo o Prof. Dr. Roberto Sidnei, é necessário que ele seja ”bem debatido, bem dialogado, sem cair na lógica disciplinar e ao mesmo tempo falando em capacidades como na poética música de Almir Sater. O dom de sermos capazes e de sermos felizes. Todos nós, dependendo das nossas motivações e aptidões, somos capazes sim! Isto significa uma atitude perante a capacidade de aprender que não seja hierarquizante, nem excludente”.

O professor deu uma verdadeira aula sobre a questão da disciplina, essencial para o debate envolvendo a estrutura do currículo. Em suas palavras, “as disciplinas não nos dão mais os dispositivos para compreensão do mundo que inventamos – hiper conectado. Elas foram inventadas há dois séculos por um filósofo que falava de ideias cartesianas, mas que serviram ao contexto daquela época”. Ele explicou que a Educação herdou a disciplina das Ciências, como forma de compreender o mundo, e também questionou a divisão entre as Ciências Exatas, Biológicas e Humanas, uma vez que todas dizem questão à humanidade. “Todas são Ciências Humanas e devem estar a serviço da dignidade humana, ancoradas em valores éticos, políticos, estéticos e espirituais”, disse.

A disciplina em sua forma incomunicante nos ensinou a separar o inseparável: teoria de prática, corpo de mente, indivíduo de sociedade e saiu esquartejado tudo. A disciplina não é apenas uma tecnologia pela qual as ciências se organizaram, mas um modo civilizatório de se pensar o mundo e uma lógica que se impôs. Por isso, hoje estamos vivendo nessas agonias várias, como a questão ambiental, o progresso que não vê além do nariz, em um mundo que nos diz ‘ou pensa diferente ou não vai compreender o que eu sou’”. Todavia, para ele “clareza, consistência, coerência e coesão não fazem mal em nada, a menos que sejam feitas com rigidez”.

De acordo com o assessor técnico, a crítica à disciplina é necessária, mas não se deve demonizá-la, pois não é possível mudar a lógica de enxergar o mundo de uma hora para outra. “A disciplina nos ensinou a aprofundar os campos. Não devemos olhá-la de forma rígida, mas relacional, para trazermos a essa lógica uma perspectiva de diálogo e dialética, sem descartá-la”.  Ele sugeriu que, ao invés disso, ocorra uma ressignificação. “Somos todos filhos e filhas do mundo disciplinar e precisamos lidar com isso, em um debate reflexivo sobre sua construção social e suas relações. É preciso que façamos um exame a partir de nossa própria existência: o que a disciplina fez conosco?”.

Outros pontos importantes apresentados foram as noções de cuidado, diversidade e o processo identitário que se apresentam enquanto transversalidades, ou seja, atravessando os campos disciplinares. “Nesse sentido, também se pode falar de um currículo étnico-constitutivo, envolvendo identidade, diversidade, a nossa cidade, o nosso Recôncavo. É nossa responsabilidade que, nos atos de currículo, enriqueçamos a heterogeneidade dos conteúdos”. Referindo-se à Base Nacional Comum Curricular, o professor esclareceu que as transversalidades já são princípios de Educação Integral, um dos fundamentos da BNCC (Base Nacional Comum Curricular).

Com relação à Educação Infantil, Roberto Sidnei questionou quais concepções de infância são trazidas para a sala de aula e afirmou que essas questões também se tratam de transversalidades. “Aquilo que costura todas as disciplinas, até porque no Ensino Fundamental a ideia é que a infância acabou, por conta dos sistemas”. Ele também disse que é uma concepção falsa pensar que no Ensino Fundamental se extingue a importância do jogo e da ludicidade.

Sobre a necessidade de multirreferencialidade, o professor afirmou que se trata de uma educação que não se baseia apenas em livros. Entre outros tipos de aprendizagem, ele citou a história oral, possível, por exemplo, em uma entrevista de estudantes a munícipes mais velhos. ”Como uma entrevista que uma criança faça a algum idoso que conheceu um rio que dava peixe e que, com a degradação, ficou fétido e virou esgoto”. Além disso, ele declarou que ”todo e qualquer saber é inacabado porque precisa de complemento”.

As categorias de saber, saber-fazer (como implicar o saber nas questões socioculturais), saber-ser, princípios metodológicos, expectativas de aprendizagem, avaliação formacional e articulação curriculares foram aspectos fundamentais, trazidos pelo professor. “Podemos criar pessoas alienadas ou capazes de pensar, de aprender com o outro, de aprender com questões socioculturais e não mais imaginar que no saber único está a sua formação”, considerou.

O prof. Dr. Roberto Sidnei Macedo ainda reiterou a necessidade de um diálogo amplo, em todo o período de construção do Currículo Franciscano, “quem não tem o gosto pela conversa curriculante fica muito difícil, pois temos que ter uma postura ética de acolhimento. Todo saber tem um debate vinculado às questões éticas. Até que ponto isso interessa a uma cidadania digna?”, finalizou, após uma manhã de muito conhecimento compartilhado, diálogo e aprendizagens.

Além do encontro desta quarta-feira, o prof. Dr. Roberto Sidnei esteve com os coordenadores dos GT´s e equipe técnica da Secretaria da Educação, na segunda-feira (08).  Na terça (09), foi feito o estudo do livro Teorias do Currículo, de autoria do professor e pesquisador.